Relação entre Mente e Consciência na Filosofia Budista Clássica
Por Bia Bispo
Em geral, o termo Vijñāna (tibetano: རྣམ་ཤེས་ rnam shes) é traduzido para o inglês como “consciousness”, “awareness” ou “knowing” e, para o português, como consciência. Contudo, esses termos não significam exatamente a mesma coisa em sânscrito ou tibetano, e nenhum deles encorpora plenamente o alcance semântico de vijñāna (sâns.) / rnam shes (tib.), pois se trata de um tipo específico de conhecer: uma cognição que apreende o objeto de modo diferenciado, segundo seus aspectos ou modalidades, e não de uma consciência genérica ou indiferenciada.
Nesse sentido, a definição proposta por Alex Berzin é particularmente esclarecedora:
“O termo não tem qualquer relação com o conceito ocidental de consciente versus inconsciente. Em vez disso, trata-se de uma classe de modos de estar ciente de algo que apreende meramente a natureza essencial do seu objeto — como o fato de ser uma visão, um som ou um objeto mental. A consciência pode ser sensorial ou mental, e existem seis ou oito tipos.”
A palavra sânscrita é formada a partir da raiz jñā, que significa “conhecer”. O prefixo vi- indica uma separação, distinção ou especificação. Portanto, sua função é cognizar, isto é, notar, observar, apreender. O termo Vijñāna (tib. rnam shes) refere-se, assim, a uma cognição diferenciada, a um conhecer específico de um objeto.
No budismo, não há uma separação substancial entre mente e consciência. O encontro da consciência (tib. rnam shes) com as faculdades sensoriais (tib. dbang po) faz surgir os pensamentos que conduzem às atividades mentais e corporais, dando origem aos sentimentos, às sensações, às percepções e às formações mentais.
“Sua Santidade explica que uma — a consciência (rnam shes) — acontece pela percepção sensorial como sua condição imediatamente precedente, enquanto a outra — a mente racional (yid)[1] — carece de percepção sensorial como condição imediatamente precedente.”[2]
No budismo, mente (tib. sems; sâns. citta) é definida como um fenômeno não físico, que não é corpo nem é substancial; portanto, não tem forma nem cor. Ao mesmo tempo, devido às suas qualidades, ela percebe, pensa, reconhece, experiencia e reage ao ambiente, interagindo com os objetos.
Assim como um espelho pode refletir claramente os objetos, assim também é a mente.
A natureza da mente é descrita como possuindo duas qualidades principais:
- Clareza luminosa (གསལ་བ་ gsal ba)[3]
- Cognoscência (ཤེས་པ་ shes pa)
São essas qualidades que permitem que os objetos surjam na mente e que ela, simultaneamente, interaja com eles. É precisamente devido a essas qualidades que a mente é capaz de discriminar, julgar e distinguir as características dos objetos, uma vez que estes são apreendidos pela consciência (rnam shes).
Em outras palavras, a mente não é perceptiva por si só como uma propriedade isolada. Ela é perceptiva funcionalmente, em interdependência com a consciência, especialmente a consciência mental. Contudo, a mente é, sim, clara e cognoscente por natureza. Sem a clareza, os objetos não poderiam refletir-se na mente; e sem a cognoscência — sua capacidade cognitiva — a mente não poderia discriminar, julgar, nomear ou reconhecer os objetos e suas características
Poderíamos dizer que a consciência (rnam shes) é um aspecto funcional da mente. A mente (sems; citta) não é um objeto nem uma entidade, mas um contínuo dinâmico de clareza (gsal ba) e cognoscência (shes pa), dentro do qual surgem as consciências primárias (gtso sems) e seus fatores associados. Essas duas — mente e consciência — são interdependentes: a mente, por si só, não apreende objetos específicos, razão pela qual necessita da consciência; a consciência, por sua vez, não possui capacidade discriminadora autônoma, razão pela qual depende da mente.
Quando se fala em mente racional (yid), é preciso compreender que, como visto acima, a mente surge em dependência da consciência já surgida. Nesse sentido, fala-se em mente principal (tib. gtso sems; sâns. citta), que se refere a qualquer uma das seis consciências primárias dentro do continuum de um ser senciente, as quais são sempre acompanhadas por uma comitiva de fatores mentais (sems byung). O termo gtso sems designa a consciência principal em uma ocorrência cognitiva específica, distinta dos fatores mentais que a acompanham e a qualificam.
Convém ainda distinguir dois usos do termo “mente” no budismo: mente racional ou intelecto (tib. yid; sâns. manas) e mente (tib. sems; sâns. citta). Mente racional refere-se à faculdade mental que apreende, discrimina e conceitualiza os objetos, especialmente no âmbito da cognição mental. A mente (sems), por sua vez, designa o contínuo mental como um todo — a base dinâmica de clareza e cognoscência dentro da qual surgem as consciências e os fatores mentais.
Segundo a definição clássica apresentada por Hopkins, a mente (sems) é “aquilo que possui similaridade com os fatores mentais que surgem como seus acompanhantes”, indicando que a mente principal e os fatores mentais compartilham a mesma natureza, embora desempenhem funções distintas.
Embora intimamente relacionados, mente racional – yid – e mente – sems – não são termos intercambiáveis em contextos técnicos.
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NOTAS:
[1] Yid / manas é exatamente: a faculdade que raciocina, discrimina (vikalpa), julga, nomeia, conceitualiza, estabelece distinções e categorias
[2] Tradicionalmente, essa relação entre mente (sems; citta) e consciência (rnam shes) é ilustrada pela metáfora do cego e do coxo (ou manco). O cego tem pernas, mas não consegue ver para onde ir; o coxo tem olhos e sabe para onde ir, mas não consegue caminhar. Sozinho, cada um é incapaz de avançar. Então o cego diz ao coxo: “Sobe nas minhas costas, e eu te levarei”. O coxo vê o caminho e orienta; o cego caminha e sustenta o movimento. Da mesma forma, a mente e a consciência não operam de modo independente: a consciência apreende os objetos, e a mente discrimina, reconhece e orienta a experiência. É somente pela cooperação de ambas que ocorre a cognição funcional. A mente (sems; citta): a) 👁️ Ela não “vê” por si só → não é perceptiva como propriedade isolada. b) Mas ela é clara e cognoscente → é o espaço onde os objetos podem aparecer e ser conhecidos. c) 🚶 Quem caminha até o objeto é a consciência (rnam shes) → ela faz o contato, a apreensão. Sozinhas, nenhuma das duas funciona plenamente: a mente sem a consciência não apreende objetos; a consciência sem a mente não sabe o que apreendeu.
[3] Quando falamos da natureza da mente, todas as palavras são meramente aproximativas: não descrevem o que ela é, apenas indicam para onde olhar. A expressão “clareza luminosa” não descreve uma luz física nem uma qualidade sensorial, mas aponta, por analogia, para a capacidade não obstrutiva da mente de tornar os fenômenos manifestos. Trata-se de um termo indicativo, não descritivo, empregado porque a linguagem humana não dispõe de vocabulário literal para essa experiência.